Nº 04 · Framework de brand science do Ehrenberg-Bass Institute

Para crescer, a marca precisa ser lembrada e ser encontrada.

Pelo modelo do Ehrenberg-Bass Institute, uma marca cresce quando mais gente se lembra dela na hora de decidir e consegue achá-la na hora de comprar. Relemos esse modelo no mundo físico, onde cada momento de consumo costuma ter uma marca dona, e mostramos como medir os dois lados.

Resumo
  • A participação de mercado depende de quantas pessoas se lembram da marca na hora de decidir e de quantas conseguem encontrá-la na hora de comprar.
  • Ser lembrada exige ocupar os momentos de consumo (Category Entry Points) que concentram o volume da categoria, algo que vai além de ser conhecida.
  • A Corona domina a praia e a Heineken domina a noite de jogo; nenhuma marca é dona de todos os momentos do mesmo consumidor.
  • Os dois pilares podem ser medidos no mundo físico, a lembrança com quem esteve no lugar e a presença e o preço com a nota fiscal.

Duas condições para ser escolhida

Sábado de sol, fim de manhã, a caminho da praia. Alguém para na loja de conveniência, abre a porta da geladeira de cervejas e escolhe em poucos segundos, sem comparar rótulos nem ler os preços com atenção. A decisão parece instantânea, mas depende de duas coisas que aconteceram muito antes daquele gesto: uma marca precisou vir à cabeça daquela pessoa e precisou estar ali, gelada, ao alcance da mão.

O Ehrenberg-Bass Institute, centro de pesquisa em marketing da University of South Australia, transformou essa intuição em modelo. Nos livros de Byron Sharp e Jenni Romaniuk, a participação de mercado de uma marca depende essencialmente de duas variáveis: quantas pessoas se lembram dela no momento em que decidem e quantas conseguem encontrá-la no momento em que compram. A primeira recebe o nome de disponibilidade mental; a segunda, de disponibilidade física. Campanhas, promoções, embalagens e acordos com o varejo entram nessa conta como meios para ampliar uma das duas, ou ambas ao mesmo tempo.

  1. 01Mental

    Ser lembrada na hora certa.

    A marca precisa surgir na cabeça sem esforço quando aparece a situação de compra. Ser conhecida ajuda pouco se ela não for a primeira resposta à pergunta “o que eu levo agora?”. Essa lembrança é construída fora da loja, pela comunicação, e posta à prova dentro dela.

  2. 02Física

    Estar ao alcance da mão.

    A marca precisa estar onde e quando a pessoa compra, com distribuição ampla, espaço na gôndola e na geladeira, preço visível e pagamento fácil. Quando falha esse último metro, a lembrança construída com tanto investimento acaba no carrinho da concorrente.

Os dois pilares dependem um do outro, e a ausência de qualquer um deles tem um custo bem conhecido no varejo.

Quem é lembrado e não está na geladeira entrega a venda à concorrente. Quem está na geladeira e não é lembrado acaba escolhido, quando é, pelo preço.

Este estudo relê o modelo com o olhar de quem mede o mundo físico. Nas próximas seções, mostramos onde a memória de marca se forma, por que cada momento de consumo tende a ter uma marca dona, com o duelo entre Corona e Heineken como exemplo, e de que maneira é possível acompanhar, com dados em vez de suposições, se uma marca está ganhando ou perdendo esses momentos.

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  • Como a memória da marca se forma
  • Na praia, quem vem à cabeça é a Corona
  • No bar, em noite de Champions, a vez é da Heineken
  • Como medir os dois pilares no mundo físico

Como a memória da marca se forma

Para entender a disponibilidade mental, ajuda pensar na memória como uma rede. Romaniuk e Sharp chamam de brand salience, algo como a proeminência da marca, o conjunto de conexões que ligam uma marca a situações concretas de compra e de consumo. Essas situações são os Category Entry Points, ou CEPs, os pontos pelos quais a pessoa entra na categoria. Calor, praia, churrasco, happy hour, presente de última hora: cada uma delas funciona como uma porta, e a marca ligada a ela tem mais chance de ser lembrada quando alguém passa por ali.

Daí decorre uma consequência que costuma surpreender. Uma marca pode ser conhecida por quase todo mundo e, ainda assim, ter pouca salience, seja porque está ligada a poucas situações, seja porque essas ligações são fracas. O que pesa é quantas portas relevantes ela ocupa e com que força.

Essas ligações não se formam sozinhas. Precisam de pontos de apoio que a memória reconheça depressa, que Romaniuk chama de Distinctive Brand Assets, os ativos distintivos de marca. São cores, símbolos, formas, sons e rituais que permitem identificar a marca sem esforço, às vezes antes mesmo de ler o nome no rótulo. A comunicação usa esses ativos para gravar a lembrança, e o ponto de venda recorre aos mesmos ativos para trazê-la de volta no instante em que a pessoa olha para a prateleira.

Distinctive Brand Assets · exemplos de categoriaQuatro tipos de sinal que a memória reconhece antes de ler o rótulo.
  • CorReconhecida a distânciaAmareloO amarelo da CoronaO vermelho da Coca-Cola
  • SímboloÚnico na categoriaEstrelaA estrela vermelha da Heineken
  • FormaDesenho do produtoGarrafaA garrafa transparente de gargalo longo da Corona
  • RitualGesto de consumoLimãoA fatia de limão no gargalo

Nem todo elemento visual de uma marca merece esse nome. Pelo critério de Romaniuk, um ativo só é distintivo quando reúne duas condições: é único, porque nenhuma concorrente da categoria o usa, e é famoso, porque a maioria dos compradores o associa à marca. O que não passa nesse teste pode até embelezar a embalagem, sem ajudar ninguém a lembrar de quem ela é. Com esses conceitos em mãos, fica mais fácil entender por que duas cervejas tão conhecidas vencem em lugares tão diferentes.

Na praia, quem vem à cabeça é a Corona

Imagine o isopor fincado na areia numa tarde de verão. Se alguém pede uma cerveja nesse cenário, é provável que a imagem que surja seja a da garrafa transparente com uma fatia de limão no gargalo. Na situação “praia, sol, calor, descanso”, a rede de memória da Corona é mais forte que a da Heineken, embora a Heineken seja a maior das duas no mercado global.

A explicação está na consistência. Durante anos, a Corona repetiu os mesmos ativos (a garrafa clara, o limão, as imagens de praia) até que a ligação entre aquela situação e a marca se tornasse quase automática. Cada nova peça reforçou a mesma porta de entrada, e o efeito acumulado aparece justamente onde a marca concentrou o esforço. O gráfico abaixo, ilustrativo como no material original, compara a força relativa das duas associações, sem escala numérica.

CEP · praia, sol, calor · força da associação
  • Corona
  • Heineken
Ilustrativo: força relativa, sem escala

Na praia, ser dona do momento vale mais do que ser a maior do mercado.

Essa vantagem, porém, tem endereço certo. Basta trocar a areia pelo balcão de um bar para o resultado mudar de lado.

No bar, em noite de Champions, a vez é da Heineken

Dia de jogo grande da Champions League, bar cheio, a turma reunida em volta da televisão. Quando chega a hora de pedir a primeira rodada, a disputa entre as duas marcas se inverte. Na situação “noite de jogo, bar com amigos, Champions League”, a rede de memória da Heineken supera com folga a da Corona, resultado de mais de 30 anos de ligação entre o grupo Heineken e o futebol europeu.

CEP · noite de jogo no bar · força da associação
  • Heineken
  • Corona
Ilustrativo: força relativa, sem escala

Essa associação começou a ser construída antes mesmo de a Heineken aparecer nas placas do torneio, por meio de outra marca do grupo.

  1. 1994
    Começa a parceria com a UEFA Champions League

    Pela Amstel, marca do mesmo grupo.

  2. 2005
    A Heineken assume as placas

    A estrela vermelha passa a dividir a tela com a taça e o hino.

  3. Hoje
    O “jogo grande” virou gatilho da marca

    São décadas de hino, taça e estrela na tela, rodada após rodada.

Ao longo desse tempo, a Heineken somou dois tipos de ativo. Há os próprios, como a estrela vermelha e o verde da garrafa, e há os emprestados do torneio, como as placas à beira do campo, a taça e o hino. Exibidos juntos durante décadas, os ativos emprestados acabaram incorporados à memória da marca, a ponto de funcionarem como se fossem dela.

A rede de memória da Heineken no futebolAtivos próprios e ativos emprestados da Champions, acumulados ao longo de décadas.
  • EstrelaSímboloÚnicaA estrela vermelha, visível de longe no balcão
  • VerdeCorPrópriaO verde da garrafa e do rótulo, quase sinônimo de “cerveja europeia”
  • UCLAtivos emprestadosPlacasPlacas à beira do campo, taça e hino que passaram a evocar a marca
  • RitualGestoBaldeO balde verde sobre a mesa do bar em noite de jogo

Postos lado a lado, os dois casos mostram a lógica completa do modelo. A Corona é dona da praia, a Heineken é dona da noite de jogo, e nenhuma das duas é dona do consumidor inteiro, já que uma mesma pessoa pode passar pelos dois momentos na mesma semana. Cada marca domina as portas de entrada em que investiu décadas de ativos consistentes, porque a salience se constrói situação por situação, muito mais do que categoria por categoria. Para quem gere uma marca, a pergunta mais útil passa a ser em quais momentos ela é lembrada e em quais está ausente.

Como medir os dois pilares no mundo físico

O modelo indica o que importa, mas deixa em aberto uma questão operacional: como saber, campanha a campanha, se a marca está ganhando ou perdendo cada momento? Uma pesquisa feita longe da praia, do bar e da gôndola tende a medir a lembrança em abstrato. No mundo físico, os dois pilares deixam rastros que podem ser lidos no lugar e na hora em que as coisas acontecem.

A disponibilidade mental se mede perguntando a quem esteve no lugar e no momento certos se lembra da marca e a que situação a associa. A disponibilidade física aparece na nota fiscal, item a item, que mostra se a marca estava na loja, a que preço e com que participação na cesta. Um terceiro sinal amarra os dois, ao revelar onde e quando cada momento de consumo acontece, das praias aos bares e estádios, e quantas pessoas circulam por ali, hora a hora.

Do conceito ao dadoO que medir em cada pilar e de onde vem cada sinal.
Como medir disponibilidade mental e física com dados do mundo físico
PilarA perguntaO sinalLeitura HYPR
MentalA marca é lembrada no momento certo?Lembrança espontânea e associação com cada CEP, perguntadas a quem esteve no lugar e no momentoaskIQ
FísicaA marca está onde a compra acontece?Presença, preço e participação na cesta, loja a loja, a partir da nota fiscal item a itemrevIQ, powered by Groundflow
MomentoOnde e quando o CEP acontece?Praias, bares, estádios e o fluxo de pessoas ao redor deles, hora a horageoIQ, powered by Places Graph

Combinados, os três sinais respondem às duas perguntas que o modelo deixa para cada marca: se a memória foi construída nos momentos que movem a categoria e se, quando a pessoa chegou à loja, a marca estava lá para ser escolhida. Para o gestor de marca, isso significa planejar a comunicação por momento de consumo, além de por público. Para o planejador de mídia, significa levar a mensagem a quem frequenta esses lugares, nos horários em que eles se enchem. Ao time comercial cabe conferir, loja a loja, se a distribuição acompanha a lembrança que a campanha está construindo.

Fontes

Byron Sharp, How Brands Grow (Oxford University Press, 2010) · Jenni Romaniuk e Byron Sharp, How Brands Grow Part 2 (Oxford University Press, 2016) · Jenni Romaniuk, Building Distinctive Brand Assets (Oxford University Press, 2018) · Romaniuk e Sharp, Conceptualizing and measuring brand salience, Marketing Theory 4(4), 2004 · UEFA, patrocínio da Champions League (Amstel desde 1994; Heineken desde 2005) · Ehrenberg-Bass Institute for Marketing Science, University of South Australia

Como citar

HYPR. Disponibilidade mental e física: como marcas crescem. Índice HYPR, Nº 04, 14 de abril de 2026. Disponível em https://hyprgrid.ai/indice/disponibilidade-mental-e-fisica.

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